Exú Orixá, Bará e Exú da Kimbanda: qual é a diferença?

Para compreender Exú, primeiro precisamos saber de qual Exú estamos falando

Quando alguém começa a estudar as religiões afro-brasileiras, rapidamente encontra uma questão que pode gerar muita confusão.

Exú é Orixá?

Bará é Exú?

O Exú incorporado na Kimbanda é o mesmo Exú cultuado como Orixá?

As respostas dependem da tradição sobre a qual estamos falando.

Esse cuidado é especialmente importante para nós porque a Quimbanda Labhanã possui raízes no Rio Grande do Sul, território no qual Batuque, Umbanda e Kimbanda estabeleceram relações históricas muito particulares.

Por isso, simplesmente utilizar a palavra “Exú” sem explicar o contexto pode colocar conceitos diferentes dentro de uma mesma definição.

Vamos começar pelo princípio.

Exú enquanto Orixá

Nas tradições religiosas de matriz iorubá encontramos Exu enquanto divindade.

Estamos falando de um Orixá.

Dentro dessas cosmologias, Exu está profundamente relacionado ao movimento, à comunicação, às trocas, aos caminhos e às possibilidades de circulação entre diferentes dimensões.

Sua importância é central.

A associação de Exu ao “Diabo” não pertence originalmente à cosmologia africana.

Essa interpretação surgiu posteriormente, especialmente através do contato com concepções cristãs que procuraram interpretar divindades africanas através de categorias europeias de bem e mal.

Portanto:

Exu Orixá não é o Diabo.

E compreender isso é fundamental antes de qualquer outro estudo.

E quem é Bará?

Aqui chegamos diretamente ao Rio Grande do Sul.

No Batuque gaúcho, a divindade correspondente a Exu recebe tradicionalmente o nome de Bará.

Isso significa que, quando dentro do Batuque alguém fala:

Bará Lodê,
Bará Lanã,
Bará Adague,
Bará Agelú

e outras qualidades reconhecidas pelas diferentes nações e linhagens, estamos no universo do culto aos Orixás.

Bará não deve ser confundido automaticamente com o Exú incorporado em uma sessão de Kimbanda.

Essa distinção é fundamental.

Bará é Orixá

Dentro do Batuque, Bará recebe tratamento religioso de Orixá.
Existem pessoas iniciadas para Bará. 
Bará pode ser o Orixá de cabeça de um iniciado.
Possui suas qualidades, fundamentos, obrigações e formas de culto.
Esse é um ponto particularmente interessante do Batuque gaúcho.
No Rio Grande do Sul, Bará possui enorme importância religiosa e cultural.
Um dos exemplos mais conhecidos está no Mercado Público de Porto Alegre, em torno do qual existe uma forte tradição relacionada ao Bará e à religiosidade afro-gaúcha.
Portanto, quando falamos de Bará dentro do Batuque, estamos falando de uma divindade.

E o Exú da Kimbanda?

Agora entramos em outro território religioso.
Na Kimbanda encontramos:

Exú Marabô;
Exú Tiriri;
Exú Tranca Ruas;
Exú Caveira;
Exú Capa Preta;
Exú Sete Encruzilhadas;

entre muitos outros.
Esses Exús pertencem a outra construção religiosa.
Eles possuem nomes próprios, manifestações próprias, campos de atuação e posições dentro das estruturas de cada tradição de Kimbanda.
Na Quimbanda Labhanã, esses Exús também são compreendidos dentro dos Reinos e dos Povos que estruturam nossa tradição.

Portanto:

Bará do Batuque e Exú da Kimbanda não são simplesmente a mesma entidade com nomes diferentes.

Essa é provavelmente a informação mais importante desta matéria.

A diferença também aparece na incorporação

Existe outro elemento que ajuda quem está começando a compreender essa diferença. Na Kimbanda, a manifestação dos Exús através da incorporação ocupa um lugar importante dentro da prática religiosa.
Os Exús possuem identidade própria.
Apresentam seus nomes.
Manifestam características particulares.
Podem possuir formas específicas de falar, trabalhar e se apresentar dentro da tradição.
No Batuque gaúcho, estamos tratando do culto aos Orixás dentro de outra estrutura ritual.
Portanto, mesmo quando encontramos aproximações simbólicas ou históricas, não devemos simplesmente transportar tudo aquilo que pertence a uma tradição para explicar a outra.

Então por que existe tanta confusão?

Porque as religiões afro-brasileiras nunca existiram completamente isoladas umas das outras.

Especialmente no Rio Grande do Sul.

Durante décadas, encontramos casas nas quais convivem diferentes tradições.

É bastante conhecida no meio religioso gaúcho a ideia de uma casa trabalhar com diferentes “lados”.

Por exemplo:

Batuque;
Umbanda;
Kimbanda.

Um mesmo sacerdote pode possuir formação em mais de uma dessas tradições.

Uma mesma casa pode possuir espaços destinados aos Orixás e outros destinados aos Exús e Pombagiras.

Essa convivência criou aproximações.

Mas aproximação não significa igualdade.

O contexto religioso do Rio Grande do Sul

Para compreender nossa Kimbanda, precisamos conhecer essa história.

O Rio Grande do Sul desenvolveu um dos campos afro-religiosos mais particulares do Brasil.

O Batuque possui uma presença histórica extremamente forte no estado.

Posteriormente, diferentes formas de Umbanda também ganharam espaço.

E nesse ambiente religioso desenvolveu-se aquilo que ficou conhecido como Linha Cruzada.

Esse cruzamento teve enorme importância na formação do cenário no qual a Kimbanda gaúcha ganhou força.

A Linha Cruzada

O termo Linha Cruzada aparece historicamente no Rio Grande do Sul relacionado à convivência e articulação de diferentes estruturas religiosas.

Não significa simplesmente colocar todas as práticas dentro de uma única religião.

Trata-se de um campo religioso no qual elementos provenientes do Batuque, da Umbanda e posteriormente do culto específico aos Exús e Pombagiras estabeleceram relações muito particulares.

É justamente nesse ambiente que encontramos uma transformação importante.

Exús e Pombagiras começam a adquirir cada vez mais espaço ritual.

E gradualmente encontramos uma Kimbanda com características muito fortes no Sul do Brasil.

Quando Exú passa a receber fundamento

Aqui encontramos uma questão histórica particularmente interessante. Pesquisadores que estudaram a Kimbanda gaúcha observaram um processo no qual os Exús passaram a receber tratamentos ritualísticos cada vez mais elaborados.
Surge, por exemplo, a expressão:
“Exú cruzado.”
Cruzar um Exú passou a envolver um tratamento ritual que, em determinados aspectos, aproxima-se da lógica de fundamento já existente no Batuque.
Isso não transforma Exú em Bará.
Mas demonstra como o ambiente religioso gaúcho influenciou profundamente a maneira pela qual a Kimbanda se estruturou.

O assentamento é uma diferença fundamental

Esse processo também ajuda a explicar a importância que o assentamento adquiriu na Kimbanda gaúcha.

Exú não permanece apenas como entidade incorporada durante uma sessão.

Existe fundamento.

Existe assentamento.

Existe preparação.

Existe manutenção.

Existe responsabilidade ritual.

Essa característica tornou-se extremamente marcante na Kimbanda do Rio Grande do Sul.

E aqui encontramos uma possível influência estrutural do próprio ambiente religioso do Batuque.

Não significa copiar o culto aos Orixás.

Significa que essas tradições conviveram e estabeleceram relações históricas.

Bará e Exú ocupando espaços diferentes

Em algumas casas gaúchas essa diferença torna-se inclusive física.

Pode existir um espaço destinado aos fundamentos do Batuque e outro destinado aos Exús da Kimbanda.

Isso demonstra algo muito importante:

quem vive essas tradições consegue reconhecer que Bará e Exú da Kimbanda pertencem a estruturas diferentes, mesmo quando essas estruturas convivem dentro de uma mesma casa religiosa.

É justamente por isso que precisamos estudar cada tradição dentro de seus próprios fundamentos.

Exú da Kimbanda é Egum?

Aqui encontramos outra pergunta difícil.

No Batuque, a palavra Egum está relacionada aos mortos.

Quando passamos para a Kimbanda, porém, encontramos diferentes concepções sobre a natureza espiritual dos Exús.

Existem tradições que interpretam Exús como espíritos que tiveram existência humana.

Outras apresentam construções cosmológicas diferentes.

Também encontramos relações entre Exús e Eguns em determinadas formas de Kimbanda gaúcha.

Por isso não consideramos correto estabelecer uma regra universal dizendo:

“Todo Exú é simplesmente um Egum.”

O tema exige aprofundamento e precisa ser compreendido de acordo com a tradição estudada.

Não devemos inventar biografias para Exú

Existe ainda um problema moderno.

A internet está cheia de histórias dizendo:

“Exú tal nasceu em determinado ano.”

“Foi determinado personagem histórico.”

“Morreu dessa maneira.”

“Depois da morte tornou-se Exú.”

Algumas narrativas podem pertencer à tradição oral de determinadas linhagens.

Mas muitas outras não possuem qualquer comprovação histórica.

Por isso precisamos separar:

tradição oral;
fundamento religioso;
interpretação de uma linhagem;
lenda;
e invenção moderna.

Na Quimbanda Labhanã não precisamos inventar uma história para tornar Exú importante.

O fundamento é mais importante do que uma biografia fantasiosa.

Exú Orixá ≠ Bará ≠ Exú da Kimbanda?

Precisamos tomar cuidado até mesmo com essa fórmula.

Se escrevermos simplesmente:

Exú Orixá ≠ Bará

também podemos criar outro erro.

No contexto do Batuque gaúcho, pesquisadores registram justamente uma equivalência entre Exu enquanto Orixá e Bará, sendo Bará a denominação utilizada nesse contexto religioso.

Portanto, uma forma didática melhor seria:

Tradições de matriz iorubá

Exu — Orixá

Batuque do Rio Grande do Sul

Bará — Orixá

Kimbanda

Exús — entidades centrais da tradição

A palavra pode parecer semelhante.

O contexto religioso muda completamente nossa compreensão.

E onde entra a Quimbanda Labhanã?

Nossa tradição possui raízes no ambiente religioso do Rio Grande do Sul.

Por isso conhecer o Batuque, a Umbanda, a Linha Cruzada e o desenvolvimento da Kimbanda gaúcha é importante para compreender de onde viemos.

Mas possuir uma raiz não significa misturar indiscriminadamente os fundamentos.

Dentro da Quimbanda Labhanã, distinguimos aquilo que pertence à nossa Kimbanda daquilo que pertence ao Batuque.

Bará possui seu fundamento.

Exú possui seu fundamento.

Cada tradição possui suas obrigações, suas iniciações e sua forma de transmitir conhecimento.

Respeitar essa diferença é também respeitar as tradições.

Por que essa diferença importa para o iniciado?

Porque um dos primeiros deveres de quem começa uma caminhada religiosa é aprender a identificar qual tradição está praticando.

Nem tudo que funciona dentro do Batuque deve ser automaticamente levado para a Kimbanda.

Nem tudo que pertence à Umbanda deve ser utilizado para explicar a Kimbanda.

Da mesma maneira, fundamentos da Kimbanda não devem ser apresentados como se pertencessem ao Batuque.

É possível respeitar e até pertencer a mais de uma tradição.

Mas isso exige saber onde uma termina e onde começa a outra.

Três nomes, contextos diferentes

Podemos finalmente responder à pergunta que abriu esta matéria.

Exú Orixá: divindade presente em tradições religiosas de matriz africana.

Bará: denominação pela qual Exu enquanto Orixá é particularmente conhecido e cultuado dentro do Batuque do Rio Grande do Sul.

Exús da Kimbanda: entidades que ocupam posição central dentro da Kimbanda e que possuem seus próprios fundamentos, manifestações e organizações dentro das diferentes tradições.

Conhecer essa diferença evita uma enorme quantidade de confusões.

E, principalmente para quem começa sua caminhada na Quimbanda Labhanã, estabelece um princípio que estará presente em todos os nossos estudos:

Não basta conhecer o nome. É preciso conhecer o fundamento e a tradição à qual aquele fundamento pertence.

É assim que começamos a sair da informação superficial e entramos verdadeiramente no estudo da Kimbanda.

Próxima matéria

Quem são as Pombagiras?

Na próxima matéria, vamos abandonar as explicações superficiais que apresentam Pombagira apenas como entidade ligada ao amor e à sexualidade.

Vamos estudar sua posição dentro da Kimbanda, sua presença na formação da Kimbanda gaúcha, sua relação com os Exús e como a Quimbanda Labhanã compreende essas entidades dentro de sua estrutura.