Quem são as Pombagiras?

Muito além do amor e da sedução: compreendendo sua presença e seu fundamento na Kimbanda

Quando se fala em Pombagira, rapidamente aparecem imagens conhecidas: mulher vestida de vermelho e preto, rosas, perfumes, taças, sensualidade, relacionamentos e conquistas amorosas.

Esses símbolos fazem parte de determinadas representações construídas em torno das Pombagiras, mas são insuficientes para explicar quem elas são.

Dentro da Kimbanda, Pombagira não ocupa um lugar secundário.

Ela não existe simplesmente para acompanhar Exú.

Não é apenas uma entidade para assuntos amorosos.

E sua importância não pode ser explicada exclusivamente pela sexualidade.

Para compreendermos Pombagira, precisamos olhar para sua formação dentro das religiões brasileiras e, especialmente para nossa tradição, para a maneira particular como seu culto ganhou força no Rio Grande do Sul.


Pombagira é Orixá?

Não.

Aqui temos uma diferença semelhante àquela que estudamos anteriormente ao separar Exu Orixá dos Exús da Kimbanda.

Pombagira, dentro da estrutura que estamos estudando, é uma entidade espiritual, e não um Orixá do panteão tradicional iorubá.

Isso já nos mostra que procurar simplesmente uma divindade africana chamada “Pombagira” e afirmar que encontramos a origem direta da entidade brasileira pode produzir erros históricos.

A Pombagira que conhecemos nas religiões afro-brasileiras desenvolveu sua identidade em território brasileiro.

Isso não significa negar influências africanas.

Significa reconhecer que tradições religiosas também se transformam.

De onde vem o nome Pombagira?

Essa questão merece cuidado.

Uma explicação muito difundida relaciona Pombagira ao nome Pambu Njila, associado a tradições centro-africanas bantu.

Essa relação aparece frequentemente em estudos e discursos religiosos, mas não devemos transformar uma aproximação etimológica em uma genealogia simples do tipo:

Pambu Njila = Pombagira brasileira.

A formação histórica da Pombagira envolve processos muito mais complexos, incluindo transformações linguísticas, religiosas e culturais ocorridas no Brasil.

Por isso, é importante diferenciar duas perguntas:

De onde pode ter vindo o nome?

e

Como surgiu a entidade que hoje conhecemos como Pombagira?

Elas não necessariamente possuem a mesma resposta.

Pombagira é a mulher de Exú?

Essa é outra simplificação muito comum.

É frequente ouvirmos:

“Exú é masculino e Pombagira é o Exú feminino.”

Ou:

“Pombagira é a mulher de Exú.”

Essas explicações podem até aparecer em determinados discursos religiosos, mas não são suficientes para definir sua posição na Kimbanda.

Pombagira possui identidade própria.

Possui nome.

Possui manifestação.

Possui campo de atuação.

Possui povo.

Possui Reino.

Possui fundamento.

Na Quimbanda Labhanã, portanto, não estudamos Pombagira apenas a partir de sua relação com um Exú.

Ela precisa ser compreendida dentro da estrutura espiritual à qual pertence.

Pombagira e Exú

Isso não significa que não exista relação entre eles.

Exús e Pombagiras formam parte fundamental da estrutura da Kimbanda.

Historicamente, essa associação aparece de maneira especialmente forte no Rio Grande do Sul.

Pesquisa antropológica sobre a Kimbanda gaúcha chega a defini-la, em seu contexto de estudo, pelo culto específico aos Exús e Pombagiras, destacando a posição de grande relevância que esse culto adquiriu no estado.

Mas relação não significa dependência.

Pombagira não precisa ser compreendida como uma figura subordinada a Exú.

Esse será um princípio importante para nossos estudos.

A Pombagira e a figura da mulher marginalizada

Aqui encontramos uma parte muito interessante da construção histórica e simbólica da Pombagira.

Diversos estudos antropológicos mostram que as representações da Pombagira frequentemente dialogam com figuras femininas colocadas historicamente à margem da moral dominante.

A mulher independente.

A mulher sexualmente livre.

A mulher que ocupa a rua.

A mulher que bebe.

A mulher que fala aquilo que deseja.

A mulher que não aceita facilmente submissão.

E, de maneira especialmente forte em determinadas narrativas, a prostituta.

A pesquisa sobre a Kimbanda gaúcha observa justamente essa associação histórica entre Pombagira e figuras femininas socialmente marginalizadas.

Mas existe um enorme perigo aqui.

Não podemos concluir que toda Pombagira tenha sido prostituta.

A representação simbólica de marginalidade não constitui uma biografia universal das entidades.

Pombagira não é sinônimo de prostituta

Esse esclarecimento precisa aparecer de maneira muito clara.

Durante muito tempo, a imagem da prostituta tornou-se uma das principais formas utilizadas para representar Pombagira.

Isso possui importância histórica e antropológica.

Mas transformar essa representação em uma regra espiritual seria um erro.

Existem inúmeras Pombagiras apresentadas através de diferentes imagens e títulos:

Rainhas;
Damas;
Ciganas;
Mulambos;
Padilhas;
Pombagiras das Almas;
Pombagiras das Encruzilhadas;
Pombagiras do Cruzeiro;
Pombagiras do Cemitério;
Pombagiras da Praia;

entre muitas outras denominações encontradas nas diferentes tradições.

Portanto, não existe uma única personalidade denominada “Pombagira”.

Estamos falando de uma categoria muito mais ampla de entidades.

Maria Padilha: história e entidade

Maria Padilha merece atenção especial porque talvez seja o nome de Pombagira mais conhecido no Brasil.

Existe, de fato, uma María de Padilla histórica, ligada ao rei Pedro I de Castela no século XIV.

O nome atravessou posteriormente literatura, imaginário popular, práticas mágicas ibéricas e outros contextos culturais antes de aparecer associado à entidade brasileira.

Pesquisas sobre o tema mostram justamente essa longa circulação do nome Maria Padilha.

Mas precisamos evitar um salto histórico:

a existência de María de Padilla na Espanha medieval não comprova que toda entidade chamada Maria Padilha seja literalmente o espírito daquela mulher.

Essa diferença é extremamente importante.

Uma coisa é investigar a história cultural de um nome.

Outra é afirmar a identidade espiritual de uma entidade.

Nome não é necessariamente biografia

Esse princípio vale para outras entidades.

Quando encontramos:

Maria Padilha;
Maria Mulambo;
Rainha das Sete Encruzilhadas;
Dama da Noite;
Pombagira das Almas;

não devemos imediatamente construir uma biografia histórica para cada nome.

Dentro da Kimbanda, precisamos distinguir:

nome, título, falange, povo, Reino e fundamento.

Esses conceitos podem se relacionar, mas não significam exatamente a mesma coisa.

Essa distinção ficará ainda mais importante quando estudarmos os Sete Reinos e os Povos da Kimbanda.

Pombagira trabalha somente para o amor?

Não.

Essa talvez seja uma das maiores reduções contemporâneas da Pombagira.

É verdade que relacionamentos, sexualidade, atração e conflitos afetivos aparecem entre os campos associados a determinadas Pombagiras.

Mas limitar sua atuação a isso seria ignorar grande parte de sua complexidade.

Dependendo da entidade, do Reino e do fundamento da tradição, encontramos relações com questões como:

caminhos;
proteção;
defesa;
prosperidade;
comunicação;
justiça;
sexualidade;
relações humanas;
rupturas;
transformação;
ancestralidade;
e diferentes formas de atuação mágica.

Portanto:

Pombagira não é uma entidade especializada exclusivamente em “trazer amor de volta”.

Essa imagem foi amplificada pela cultura popular, por anúncios de serviços espirituais e, mais recentemente, pelas redes sociais.

Pombagira e sexualidade

Também não precisamos negar a sexualidade para defender a importância da Pombagira.

Esse seria outro erro.

A sensualidade, o corpo, o desejo e a autonomia feminina aparecem fortemente em muitas de suas manifestações.

O problema não está em reconhecer isso.

O problema surge quando toda a entidade é reduzida a isso.

A Pombagira pode confrontar modelos sociais que historicamente tentaram controlar a maneira como a mulher deveria falar, vestir-se, desejar ou ocupar determinados espaços.

Por isso, pesquisadores também enxergaram na Pombagira possibilidades de inversão simbólica de posições de subalternidade.

Ela pode carregar sensualidade sem ser apenas sexualidade.

Pombagira no Rio Grande do Sul

Agora chegamos a um ponto essencial para a Quimbanda Labhanã.

No Rio Grande do Sul, o culto aos Exús e Pombagiras adquiriu características particularmente fortes.

A pesquisa antropológica identifica que a Kimbanda gaúcha alcançou uma posição singular quando comparada a outras regiões brasileiras.

Para entendermos esse processo, precisamos lembrar do cenário que já estudamos:

Batuque → Umbanda → Linha Cruzada → desenvolvimento da Kimbanda gaúcha.

Não devemos enxergar isso como uma linha histórica rígida e igual para todas as casas.

Mas esse contexto ajuda a compreender como Exús e Pombagiras passaram progressivamente a receber um culto específico.

Da Pombagira subordinada à Pombagira de fundamento

A pesquisa sobre o campo gaúcho registra transformações importantes a partir principalmente da segunda metade do século XX.

Em determinadas concepções umbandistas antigas, Exús e Pombagiras apareciam subordinados a outras categorias de entidades.

No processo de formação da Kimbanda gaúcha, essa posição se transforma.

Eles passam a adquirir maior autonomia ritual.

Recebem festas.

Vestimentas.

Assentamentos.

Fundamentos.

E formas específicas de culto.

O estudo de Emerson Giumbelli e Leonardo Oliveira de Almeida chama atenção inclusive para uma expressão muito significativa nesse processo: ao lado do chamado “Exú da Alta”, aparece a ideia da “Pombagira de luxo”.

Isso representa uma mudança importante na maneira como essas entidades passam a ser apresentadas e compreendidas.

Rainhas, Damas e a construção da nobreza

É interessante observar como a linguagem da Kimbanda frequentemente utiliza títulos de nobreza:

Rainha;
Rei;
Dama;
Senhora.

Na Kimbanda gaúcha, essa linguagem adquiriu uma dimensão particularmente marcante.

Entidades antes associadas exclusivamente à marginalidade passam também a receber símbolos de dignidade, poder e autoridade.

Um exemplo extremamente interessante documentado na pesquisa gaúcha é Maria Mulambo, chamada de Rainha do Lixo.

A aparente contradição é justamente significativa:

Rainha e Mulambo.

Coroa e marginalidade.

A entidade não precisa abandonar sua relação com os espaços marginalizados para adquirir autoridade.

A própria margem pode tornar-se lugar de poder.

Pombagira e incorporação

Assim como acontece com Exú, a incorporação possui importância dentro de muitas formas de Kimbanda.

A entidade manifesta características próprias através do médium.

Mas precisamos repetir algo que já ensinamos anteriormente:

incorporar Pombagira não significa automaticamente conhecer seu fundamento.

Manifestação mediúnica e formação iniciática são coisas diferentes.

O desenvolvimento precisa ser acompanhado de estudo, disciplina e orientação.

Pombagira e assentamento

Na tradição gaúcha, encontramos outro elemento fundamental: o assentamento.

Pesquisas sobre a formação da Kimbanda no Rio Grande do Sul destacam justamente a passagem para uma estrutura na qual Exús e Pombagiras recebem assentamentos próprios, vinculando pessoas e entidades dentro de uma relação ritual específica.

Isso ajuda a compreender por que a Kimbanda não pode ser reduzida apenas a sessões de incorporação.

Existe uma estrutura material e iniciática por trás da relação com a entidade.

Na Quimbanda Labhanã, entretanto, os fundamentos internos desses assentamentos pertencem ao campo iniciático e não serão expostos publicamente.

Pombagira não é propriedade do médium

Da mesma maneira que ensinamos sobre Exú, precisamos dizer:

Pombagira não pertence ao médium.

Dizer “minha Pombagira” pode ser uma forma cotidiana de identificar a entidade relacionada à pessoa.

Mas isso não significa propriedade.

Também não existe necessidade de transformar entidades em uma competição:

“Minha Pombagira é mais forte.”

“Minha Pombagira manda naquela.”

“Minha entidade é rainha e a outra não.”

Esse tipo de disputa diz muito mais sobre a vaidade humana do que sobre conhecimento espiritual.

As Pombagiras e os Sete Reinos

Na Quimbanda Labhanã, as Pombagiras também são estudadas dentro da estrutura dos Sete Reinos:

1. Encruzilhada
2. Cruzeiro
3. Matas
4. Lira
5. Almas
6. Cemitério
7. Mar

Isso muda completamente a profundidade do estudo.

Não perguntamos apenas:

“Qual é o nome da minha Pombagira?”

Precisamos posteriormente compreender:

A qual Reino está relacionada?

Qual seu Povo?

Qual seu campo de atuação?

Quais relações existem entre esses territórios espirituais?

E conforme avançamos, descobrimos que uma entidade não precisa ser compreendida através de uma classificação simplista.

Existem desdobramentos e relações entre diferentes campos de força.

Esse conhecimento pertence aos níveis mais profundos do estudo da tradição.

Pombagira Patrona

Na Quimbanda Labhanã existe ainda uma relação importante entre o iniciado e sua Pombagira Patrona.

Esse conceito não deve ser confundido simplesmente com:

“a Pombagira que eu gosto mais”

ou

“a primeira Pombagira que incorporou”.

A relação patronal pertence à estrutura da tradição e precisa ser compreendida através de seus próprios fundamentos.

À medida que o iniciado avança em sua caminhada, essa relação ganha profundidade.

E novamente encontramos o princípio que orienta todo nosso ensino:

quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade.

Afinal, quem são as Pombagiras?

Depois de percorrermos todo esse caminho, podemos finalmente responder:

Pombagiras são entidades espirituais que ocupam posição central dentro da Kimbanda, possuindo identidades, manifestações, campos de atuação e fundamentos próprios conforme cada tradição.

Sua formação religiosa brasileira envolve uma história complexa.

Carregam símbolos relacionados à marginalidade, liberdade, poder, sensualidade, enfrentamento, transformação e diferentes experiências humanas.

Mas nenhuma dessas características, isoladamente, consegue defini-las.

Pombagira não é apenas amor.

Não é apenas sexo.

Não é simplesmente prostituta.

Não é “a mulher de Exú”.

E não é uma personagem criada para satisfazer todos os desejos humanos.

Dentro da Kimbanda, ela precisa ser compreendida dentro de seu fundamento.

A compreensão da Quimbanda Labhanã

Para nós, conhecer uma Pombagira não significa apenas conhecer seu nome.

É necessário compreender progressivamente sua posição dentro da tradição.

Reino.
Povo.
Fundamento.
Manifestação.
Responsabilidade.

Alguns desses conhecimentos podem ser ensinados publicamente.

Outros pertencem exclusivamente à caminhada iniciática.

Essa diferença é importante.

Porque a Kimbanda não se aprende apenas através daquilo que pode ser encontrado na internet.

Existe aquilo que pode ser estudado.

Existe aquilo que precisa ser vivenciado.

E existe aquilo que somente pode ser recebido quando o iniciado está preparado para compreender.