A Quem são os Exús?
Compreendendo Exú dentro da Kimbanda e de nossa raiz no Rio Grande do Sul
Poucos nomes dentro das religiões afro-brasileiras despertam tanta curiosidade, respeito, medo e, ao mesmo tempo, tanta interpretação equivocada quanto Exú.
Para algumas pessoas, Exú ainda é associado ao diabo. Para outras, seria simplesmente um espírito que realiza trabalhos. Há também quem confunda o Exú cultuado na Kimbanda com o Orixá Exú das tradições de matriz africana.
Nenhuma dessas explicações, isoladamente, é suficiente para compreender a complexidade do tema.
Para entendermos quem são os Exús dentro da Kimbanda, precisamos primeiro fazer uma distinção fundamental:
nem toda tradição religiosa compreende Exú da mesma maneira.
E, para nós, existe ainda outro elemento essencial: a história particular que a Kimbanda desenvolveu no Rio Grande do Sul, de onde vem nossa raiz.
Primeiro: Exú não é o Diabo
Antes de qualquer aprofundamento, precisamos retirar um dos maiores preconceitos construídos em torno de Exú.
Exú não é o Diabo cristão.
A associação entre divindades e entidades africanas e figuras demoníacas europeias surgiu em processos históricos de tradução, perseguição religiosa e interpretação das culturas africanas através de conceitos cristãos.
Essa associação atravessou gerações e deixou marcas profundas no imaginário brasileiro.
Tridentes, encruzilhadas, cores, bebidas, fogo e determinados elementos ritualísticos passaram a ser interpretados através de uma visão cristã de “bem contra o mal”.
Mas não podemos utilizar a teologia de uma religião para definir as entidades pertencentes a outra tradição.
Para compreender Exú, precisamos estudá-lo dentro do universo religioso no qual ele é cultuado.
Exú Orixá e os Exús da Kimbanda
Aqui encontramos uma distinção fundamental.
Existe Exú enquanto Orixá nas tradições religiosas de matriz iorubá e em religiões brasileiras que preservaram esses cultos.
E existem os Exús cultuados na Kimbanda.
Não devemos simplesmente colocar ambos como se fossem exatamente a mesma coisa.
No próprio Rio Grande do Sul essa distinção torna-se bastante visível.
No Batuque gaúcho, encontramos Bará, pertencente ao culto dos Orixás.
Na Kimbanda encontramos entidades identificadas por nomes próprios e títulos, formando diferentes povos, linhas e Reinos.
Portanto, quando dentro de nossa tradição falamos:
Exú Marabô,
Exú Tiriri,
Exú Caveira,
Exú Tranca Ruas,
Exú Rei das Sete Encruzilhadas,
Exú Capa Preta
e tantos outros, estamos falando dentro de uma construção religiosa diferente daquela utilizada para compreender o Orixá.
Essa distinção é indispensável para quem começa a estudar Kimbanda.
Então quem são os Exús da Kimbanda?
Dentro da Kimbanda, Exú ocupa uma posição central.
Não é uma entidade secundária.
Não é simplesmente um mensageiro utilizado para levar pedidos.
Também não deve ser reduzido à imagem de um “espírito que faz trabalhos”.
Exú possui identidade, fundamento e campo de atuação.
Os Exús se apresentam através de diferentes nomes, falanges, povos e Reinos, assumindo características relacionadas aos seus campos de atuação e aos fundamentos das tradições às quais pertencem.
Por isso, conhecer o nome de um Exú não significa conhecer seu fundamento.
Existe uma diferença enorme entre saber o nome de uma entidade e compreender aquilo que ela representa dentro de uma tradição iniciática.
Exú é espírito de uma pessoa que morreu?
Essa é uma questão muito mais complexa do que parece.
Encontramos diferentes explicações dependendo da tradição.
Em determinados sistemas religiosos brasileiros, os Exús são compreendidos como espíritos desencarnados que tiveram experiências humanas.
Outras tradições desenvolvem interpretações diferentes sobre sua natureza.
Na própria formação histórica da Kimbanda gaúcha encontramos relações complexas entre Exús, Pombagiras, Orixás e Eguns.
Por isso, não consideramos correto estabelecer uma única explicação universal e dizer:
“Todo Exú foi necessariamente uma determinada pessoa que viveu na Terra.”
Da mesma maneira, não devemos inventar biografias para entidades simplesmente para tornar suas histórias mais atraentes.
Uma coisa é a tradição oral transmitida dentro de uma linhagem.
Outra é uma história criada posteriormente e apresentada como verdade histórica.
Na Quimbanda Labhanã, conhecimento de fundamento precisa ser diferenciado de lenda, interpretação pessoal e conteúdo popular.
Exú e a ancestralidade
Para aprofundarmos Exú também precisamos falar de ancestralidade.
A Kimbanda não pode ser compreendida apenas olhando para aquilo que acontece durante uma incorporação.
Existe uma relação com os mortos, com os antepassados, com os conhecimentos transmitidos e com diferentes formas de compreender a continuidade entre o mundo material e o espiritual.
No Rio Grande do Sul essa relação ganhou características muito particulares.
A formação da Kimbanda gaúcha ocorreu em um ambiente no qual já existiam tradições profundamente estabelecidas, especialmente o Batuque, e posteriormente diferentes formas de Umbanda.
Nesse encontro surgiram estruturas próprias.
É justamente aqui que começamos a entender por que a Kimbanda do Rio Grande do Sul possui características tão marcantes.
A Kimbanda no Rio Grande do Sul
O Rio Grande do Sul ocupa uma posição extremamente importante na história da Kimbanda brasileira.
Aqui, o culto aos Exús e Pombagiras adquiriu uma força e uma organização que chamam a atenção inclusive de pesquisadores das religiões afro-brasileiras.
A Kimbanda passou a possuir festas próprias, fundamentos próprios, assentamentos, processos de preparação e uma identidade religiosa cada vez mais definida.
Em muitas casas gaúchas encontramos historicamente três estruturas convivendo:
Batuque, Umbanda e Kimbanda.
Isso não significa que sejam a mesma religião.
Cada uma preserva sua própria estrutura.
Mas essa convivência ajuda a compreender determinadas características assumidas pela Kimbanda no Sul.
Da Linha Cruzada à Kimbanda gaúcha
Quando aprofundamos a história religiosa do Rio Grande do Sul, encontramos também a chamada Linha Cruzada.
Ela é importante para compreendermos determinados processos históricos que ajudaram a constituir o campo religioso no qual a Kimbanda gaúcha ganhou força.
Com o passar das décadas, Exús e Pombagiras deixaram de aparecer apenas como entidades periféricas dentro de determinadas estruturas e passaram a receber um culto cada vez mais específico.
Festas próprias.
Assentamentos.
Fundamentos.
Vestimentas.
Pontos.
Hierarquias.
E uma ritualística progressivamente estruturada.
A Kimbanda foi adquirindo uma identidade cada vez mais visível.
O chamado “Exú da Alta”
Existe ainda um elemento histórico particularmente interessante no Rio Grande do Sul.
Em determinados períodos começou a aparecer no meio religioso gaúcho a ideia do chamado “Exú da Alta”.
A expressão foi utilizada para distinguir determinadas manifestações de Exú daquelas concepções que anteriormente os colocavam simplesmente em uma posição espiritual inferior.
Também encontramos no vocabulário religioso gaúcho expressões como Exú Catiço e posteriormente diferentes classificações desenvolvidas pelas próprias casas.
Isso mostra que a compreensão de Exú no Rio Grande do Sul não permaneceu estática.
Ela passou por transformações.
E essas transformações contribuíram para a formação da Kimbanda que encontramos hoje.
Exú assentado
Outro ponto fundamental da tradição gaúcha está na relação entre Exú e o assentamento.
Na Kimbanda, a relação com Exú não se resume à incorporação.
Existe fundamento material.
Existe preparação.
Existe consagração.
Existe manutenção.
Existe responsabilidade.
O assentamento representa uma relação ritual muito mais profunda do que simplesmente possuir uma imagem de Exú dentro de casa.
Por isso é necessário fazer uma distinção:
imagem não é assentamento.
Da mesma maneira:
incorporar Exú não significa automaticamente possuir autoridade para assentar Exú.
Esses conhecimentos pertencem à formação iniciática e precisam ser transmitidos dentro de uma tradição.
Exú não é propriedade do médium
Essa também é uma compreensão importante.
Às vezes ouvimos:
“Meu Exú faz isso.”
“Meu Exú é mais forte.”
“Meu Exú manda naquele Exú.”
Esse tipo de linguagem pode criar uma compreensão equivocada.
O médium estabelece uma relação espiritual com sua entidade, mas isso não transforma Exú em propriedade pessoal.
Dentro de uma tradição séria, quanto maior a caminhada iniciática, maior deve ser a responsabilidade do praticante.
Exú não deve servir para alimentar vaidade.
Os Exús e os Sete Reinos
Na Quimbanda Labhanã, não estudamos os Exús de maneira isolada.
Eles são compreendidos dentro de uma organização maior.
Nossa tradição trabalha com os Sete Reinos:
1. Reino da Encruzilhada
2. Reino do Cruzeiro
3. Reino das Matas
4. Reino da Lira
5. Reino das Almas
6. Reino do Cemitério
7. Reino do Mar
Os Reinos ajudam a compreender campos de atuação, povos e fundamentos existentes dentro de nossa tradição.
E existe um ponto importante:
Cruzeiro existe em todos os Reinos.
Por isso, o estudo dos Reinos não deve ser reduzido a uma simples tabela dizendo onde cada Exú trabalha.
Existe uma estrutura muito mais profunda, que vai sendo compreendida conforme o iniciado avança em sua formação.
Exú e o desenvolvimento do médium
Outro erro comum é acreditar que desenvolver Exú significa apenas aprender a incorporar.
A incorporação pode fazer parte do desenvolvimento.
Mas ela não representa todo o desenvolvimento.
Na Quimbanda Labhanã, desenvolver-se significa aprender gradualmente:
a reconhecer sua entidade;
a compreender sua manifestação;
a conhecer os fundamentos da tradição;
a respeitar hierarquia;
a compreender os Reinos;
a assumir responsabilidades;
e a diferenciar manifestação espiritual de comportamento pessoal.
O desenvolvimento precisa caminhar junto com conhecimento.
Exú não é fantasia
A popularização da Kimbanda também trouxe um problema.
A imagem de Exú tornou-se extremamente presente nas redes sociais.
Roupas elaboradas, capas, cartolas, bengalas, joias, imagens, festas e fotografias passaram a circular intensamente.
Esses elementos podem fazer parte da expressão religiosa.
Mas não podemos confundir estética com fundamento.
Uma entidade não possui maior fundamento porque utiliza uma roupa mais cara.
Uma fotografia não demonstra iniciação.
Uma imagem bonita não substitui conhecimento.
E uma manifestação impressionante não substitui formação.
Na Kimbanda, aquilo que aparece externamente deve estar sustentado pelo fundamento.
Exú e responsabilidade
Talvez uma das palavras mais importantes para compreender Exú seja:
responsabilidade.
Kimbanda não deve ser construída sobre medo.
Também não deve ser construída sobre a ideia de que Exú resolverá qualquer desejo sem consequência.
Toda movimentação possui consequência.
Toda escolha exige responsabilidade.
Quanto mais conhecimento uma pessoa recebe, maior se torna sua responsabilidade sobre aquilo que faz com esse conhecimento.
Esse princípio acompanha toda a caminhada dentro da Quimbanda Labhanã.
Exú dentro da Quimbanda Labhanã
Para nossa tradição, Exú não pode ser explicado em poucas linhas.
Ele precisa ser estudado.
Primeiro compreendemos sua posição dentro da Kimbanda.
Depois estudamos os Reinos.
Posteriormente os Povos.
Aprofundamos os fundamentos.
E conforme o iniciado avança em seus graus, determinados conhecimentos deixam de pertencer ao campo público e passam a fazer parte da transmissão iniciática.
Essa separação é necessária.
Nem tudo aquilo que pode ser conhecido precisa ser publicado.
Existem conhecimentos que pertencem à tradição e aos seus iniciados.
Afinal, quem é Exú?
Depois de todo esse caminho, talvez seja possível compreender por que não começamos esta matéria dando uma definição de duas linhas.
Exú não cabe em uma definição simples.
Dentro da Kimbanda, estamos diante de entidades que ocupam posição central em uma tradição religiosa construída e transformada ao longo da história brasileira.
No Rio Grande do Sul, esse culto adquiriu características especialmente fortes e desenvolveu relações particulares com a história do Batuque, da Umbanda, da Linha Cruzada e da própria Kimbanda gaúcha.
Na Quimbanda Labhanã, recebemos essa herança através de nossa raiz, mas ela não é apenas repetida.
Ela é estudada, preservada e transmitida através de uma estrutura iniciática.
Por isso, para conhecer verdadeiramente Exú, não basta perguntar:
“O que Exú pode fazer por mim?”
Existe uma pergunta anterior e muito mais importante:
“Quem é Exú dentro da tradição que estou buscando conhecer?”
É a partir dessa pergunta que o estudo realmente começa.